O Lago Titicaca, compartilhado pela Bolívia e pelo Peru, está sofrendo uma degradação que esvaziou as redes em suas áreas rasas; no chamado lago menor, a atividade pesqueira foi reduzida a quase nada, e muitas famílias optaram por partir. Nesse cenário, a pressão do clima seco recente agrava a deterioração. que já está a afectar os ecossistemas e os meios de subsistência.
As diferenças internas do grande corpo de água são notáveis: o lago menor, com cerca de 2.000 km² e setores de 2 a 4 metros de profundidade, mal chegava 50 centímetros em lugares como a Baía de Cohana, enquanto o lago maior, com uma área de mais de 6.000 km², permanece mais profundo e estável. Os dois são separados pelo Estreito de Tiquina, que marca uma fronteira física e ecológica.
Cohana e o lago menor: impactos visíveis nas comunidades e ilhas
Cohana se tornou o epicentro do problema porque o Rio Katari deságua no lago, transportando águas residuais e poluição de El Alto (com quase um milhão de habitantes) e da vizinha Viacha. O lago menor, cuja parte mais profunda mal chega a 40 metros, tem águas turvas, áreas pantanosas e uma camada superficial verde alimentada por nutrientes que promovem a proliferação de microalgas.
Uma substância pegajosa e escura acumula-se no fundo e adere aos juncos da totora. Esta planta, essencial para a alimentação do gado e para o artesanato local, apresenta uma crosta escura nos caules, algo que os animais Eles evitam comer por causa de sua má condição, com o consequente impacto nas economias familiares.
Até pouco tempo atrás, era comum ver redes e canoas em busca de espécies nativas, como karachi ou mauri; hoje, essa imagem quase desapareceu. Em muitas praias, o cheiro está se tornando mais intenso e a água se tornou mais opaca, sintomas de uma perda acelerada da qualidade ambiental que também afeta aves e anfíbios.
Líderes comunitários de comunidades ribeirinhas explicam que a vida cotidiana foi interrompida: os jovens estão indo embora porque a pesca não é mais uma fonte confiável de renda e há escassez de empregos alternativos. O sentimento compartilhado é de que o lago "não é mais produtivo" e que a poluição está cobrando seu preço. Ela se estende de Cohana para outras comunidades, espalhando o dano.
A ilha de Sicuya, a menor do Titicaca, ilustra bem a mudança. Com menos de 300 habitantes, mal comporta uma escola com 27 alunos e uma clínica médica básica. O acesso é feito apenas por barco, e muitas casas ficam vazias durante boa parte do ano. A área ao redor é escura, com juncos escuros; os moradores relatam que a pesca local é praticamente inexistente. desapareceu devido à degradação do habitat.
Os moradores também alertam que, com as secas recentes, o lençol freático caiu de forma alarmante em áreas rasas do lago menor. Essa redução, combinada com as descargas vindas dos afluentes, acelera a deterioração das áreas costeiras mais próximo das atividades humanas.
Causas, riscos e respostas urgentes

Pesquisas da Autoridade Binacional do Lago Titicaca atribuem o problema a uma combinação de escoamento urbano, descargas industriais e atividade de mineração. Nutrientes como o fósforo — comum em detergentes — alimentam microalgas que, quando decompostas por bactérias, reduzem o oxigênio dissolvido e geram sulfeto de hidrogênio, um composto capaz de matar peixes, sapos e pássaros.
Especialistas alertam para uma janela de ação muito limitada: se a tendência não for interrompida em menos de dez anos, a reversão dos danos pode se tornar tecnicamente inviável. Eles enfatizam que a faixa costeira é a mais exposta — devido à proximidade com cidades, agricultura, pecuária e indústria — e que é necessário atacar a fonte do fósforo com urgência.
Entre as medidas propostas estão a conclusão de quatorze estações de tratamento de águas residuais para reforçar a estação principal, a implantação de “mini-estações” móveis do tamanho de contentores, a construção de um grande canal de desvio para interceptar os fluxos contaminados antes de chegarem ao lago e a criação de lagoas pouco profundas com juncos que funcionam como como filtros naturais de nutrientes.
Além da infraestrutura, a proposta é conter a expansão descontrolada do El Alto para o lago por meio de um planejamento urbano rigoroso e promover o turismo responsável que contribua para a conservação. Experiências no Lago Genebra (Suíça) e no Paranoá (Brasil) demonstram que, com medidas sustentadas ao longo dos anos, isso é possível. recuperar corpos de água de alta pressão.
Por enquanto, o progresso é limitado: a modernização da principal estação de tratamento acumula atrasos e vários projetos não foram totalmente implementados. Organizações da sociedade civil apontam deficiências na mitigação pública e pedem investimento e supervisão acelerados, dada a A degradação do lago menor não dá trégua.
Há também uma crescente dimensão social e de saúde. Iniciativas educacionais como "El Titicaca nos cuentes" (O Titicaca nos Conta) nos lembram que afluentes — incluindo o Rio Coata, no lado peruano — transportam água não tratada para o lago. Alertam-se para os riscos de doenças gastrointestinais e danos hepáticos ou renais, e até mesmo efeitos neurológicos em crianças, associados a metais pesados, reforçando a urgência de implementar campanhas de ETAR, reciclagem e conservação de água.
O cenário que se desenha é o de um lago menor sufocando, com Cohana como termômetro: uma combinação de vazamentos e secas reduz a pesca, acelera a migração e atinge os juncos. Há uma curta janela para cortar o fósforo na fonte, concluir o tratamento da água, organizar o território e envolver a população em soluções práticas, antes que a deterioração se agrave. irreversível em termos técnicos.
