O futuro do biodiesel argentino está em jogo no Senado: PMEs e as grandes casas legislativas divergem sobre o novo marco regulatório.

  • O Senado argentino está debatendo um projeto de lei que busca aumentar a mistura obrigatória de biodiesel de 7,5% para 10%, abrindo o mercado à concorrência.
  • A Cepreb (Associação de Pequenas e Médias Empresas Regionais) propõe uma participação de 12,5% e um esquema de três segmentos para evitar a concentração nas grandes empresas petrolíferas.
  • A CARBIO e a CIARA apoiam o projeto, mas pedem que a mistura seja elevada para 12,5%, argumentando em função da competitividade em relação ao diesel importado.
  • O debate expõe a tensão entre a desregulamentação, as raízes industriais das províncias e as aspirações de exportação dos principais intervenientes.

Usina de produção de biodiesel

O futuro do biodiesel na Argentina está em jogo. O Senado está analisando um projeto de lei que promete reorganizar o mercado de biocombustíveis, mas que desencadeou uma acirrada disputa entre pequenas e médias empresas do interior do país e grandes corporações de petróleo e gás. No centro da controvérsia está a porcentagem obrigatória de mistura com o diesel, um número que determina a sobrevivência de dezenas de usinas e os rumos da transição energética do país.

A iniciativa, liderada pela senadora Patricia Bullrich e apoiada pelo Poder Executivo, propõe uma mudança profunda nas regras do jogo. Ela aumentaria o teor de biodiesel no diesel dos atuais 7,5% para 10%, mas com a abertura à livre concorrência, algo que atualmente não existe. As pequenas e médias empresas (PMEs) regionais, que abastecem quase todo o mercado interno, veem essa medida como uma sentença de morte. Grandes associações industriais, por outro lado, consideram-na um passo necessário para modernizar o setor e capitalizar as oportunidades de exportação.

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Um projeto que busca mudar as regras.

Biodiesel em tanques de armazenamento

O projeto de lei S-809/26, apresentado por Bullrich, propõe um novo marco regulatório para biocombustíveis, substituindo a lei em vigor desde 2021. O texto contempla o aumento da mistura obrigatória de biodiesel de 7,5% para 10% dentro de um ano após sua promulgação, e também o aumento da mistura de bioetanol na gasolina de 12% para 15%. Mas o ponto mais controverso é a eliminação do sistema de cotas e preços regulamentados, que seriam substituídos por um sistema de paridade de importação e uma plataforma eletrônica de negociação.

Além disso, as refinarias de petróleo estão autorizadas a coprocessar matérias-primas vegetais e incluir esse volume na exigência de mistura obrigatória. Essa medida foi duramente criticada por pequenas e médias empresas (PMEs), que a interpretam como uma forma de as grandes empresas petrolíferas conquistarem uma fatia do mercado sem passar pelas unidades de processamento tradicionais. O projeto de lei também permitiria que grandes processadores integrados de oleaginosas, que atualmente exportam a maior parte de sua produção, abastecessem o mercado interno.

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Pequenas e médias empresas alertam sobre sua sobrevivência.

Amostras de biodiesel em laboratório

A Câmara Regional de Pequenos e Médios Produtores de Biocombustíveis (Cepreb) manifestou-se com dados convincentes. O setor compreende 25 fábricas distribuídas por cinco províncias (Santa Fé, Buenos Aires, La Pampa, Entre Ríos e San Luis), empregando aproximadamente 9.500 trabalhadores e gerando cerca de US$ 1.000 bilhão em receita anual. Essas empresas, que dependem da compra de óleo de soja como matéria-prima, seriam obrigadas a competir com empresas que produzem seu próprio óleo — uma assimetria que consideram insuperável em condições de igualdade.

Segundo a Cepreb, o coprocessamento permitido para refinarias reduziria a quota de mercado efetiva dos produtores independentes para aproximadamente 7%, apesar do limite nominal ser de 10%. Além disso, o artigo 38.º do projeto de lei estabelece uma transição que reduziria gradualmente a quota de mercado garantida para as PME de 5% do limite até ao seu desaparecimento completo no final de 2030. A partir de janeiro de 2031, todo o mercado estaria aberto à livre concorrência, sem qualquer proteção para as empresas regionais.

O diretor executivo da Cepreb, Federico Martelli, não poupou palavras: "A proposta de lei de Patricia Bullrich foi feita sob medida para as empresas de oleaginosas e contra as PMEs". Sua crítica se concentra no fato de que o projeto de lei não leva em consideração a segmentação regional e que a liberalização total favoreceria a concentração nas mãos de cinco ou seis grandes empresas, colocando as PMEs em risco e desestabilizando a rede industrial do interior produtivo.

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Biodiesel em garrafas para análise.

Por outro lado, a Câmara Argentina de Biocombustíveis (CARBIO) e a Câmara da Indústria Petrolífera (CIARA) manifestaram apoio ao projeto e defendem que ele seja ampliado. Luis Zubizarreta, presidente da CARBIO, afirmou que "consideramos viável elevar a mistura para 12,5%, visto que os preços atuais são competitivos em comparação com o diesel importado". Segundo Zubizarreta, um maior uso de biodiesel não só reduziria a dependência das importações de combustíveis, como também teria um efeito positivo nas exportações de óleo de soja, já que o aumento do consumo interno impulsionaria os preços internacionais.

As organizações enfatizam que o setor vem investindo há décadas e gera mais de 30.000 empregos. Zubizarreta também destacou que a abertura do mercado à livre concorrência até 2030 é um prazo razoável e não representaria um sacrifício fiscal para o Estado; pelo contrário: "qualquer aumento no preço do biodiesel resultaria em melhores preços para as exportações de óleo de soja". Em relação às críticas das PMEs, o presidente da CARBIO esclareceu que não foram firmados acordos formais com nenhum setor, mas que incentivam o diálogo contínuo e confiam que o Senado será o fórum apropriado para encontrar soluções regulatórias.

Essa posição está alinhada à da CIARA e do Centro de Exportadores de Cereais (CEC), que emitiram uma declaração conjunta instando o Senado a analisar o projeto de lei o mais breve possível. O setor espera que o novo marco legal combine concorrência com investimento e geração de empregos, garantindo também benefícios para o consumidor final.

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Uma alternativa à partilha de mercado

Usina de biodiesel com tanques

Em resposta ao progresso do projeto, a Cepreb apresentou uma proposta alternativa buscando um equilíbrio. A ideia é elevar a mistura obrigatória para 12,5%, mas dividir o mercado em três segmentos para permitir que as PMEs concorram em igualdade de condições. Cinco por cento seriam reservados para fábricas regionais localizadas a mais de 80 quilômetros do porto de General San Martín, 2,5% para empresas não integradas ao polo industrial de Rosário e os 5% restantes seriam abertos à livre concorrência, incluindo grandes processadores de oleaginosas. Em todos os casos, a alocação seria feita por meio de processos licitatórios, com preços determinados pelo mercado, mas dentro de grupos de empresas com estruturas de produção comparáveis.

A proposta não implica a manutenção das atuais quotas fixas, mas sim o estabelecimento de uma concorrência genuína entre empresas similares. Segundo a Cepreb, esse sistema permitiria que grandes empresas entrassem no mercado interno sem sacrificar a presença industrial das províncias. A organização esclarece ainda que não há consenso com outras associações industriais sobre essa alternativa, mas insiste que ela é a única forma de garantir a sobrevivência das PMEs e, consequentemente, das economias regionais.

O debate, portanto, não se resume a uma questão percentual. O modelo de desenvolvimento está em jogo: concentrar esforços em grandes grupos exportadores ou preservar uma rede de fábricas que promova um senso de pertencimento e emprego nas áreas rurais. As audiências no Senado revelaram posições irreconciliáveis, e o tempo está se esgotando.

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Entretanto, o setor continua a operar com a tarifa de 7,5% e a incerteza de não saber quando ou como a nova lei será implementada. As pequenas e médias empresas (PMEs) exigem que seus números sejam considerados: as 25 fábricas produzem cerca de 900.000 mil toneladas anualmente, e um aumento para 12,5% geraria uma demanda adicional de 600.000 mil toneladas, o suficiente para preencher sua capacidade sem forçar fechamentos. As grandes associações industriais, por sua vez, insistem que, sem a liberalização completa, o país perderá oportunidades de investimento e exportação em um mercado global cada vez mais competitivo.

A decisão que os senadores tomarem nas próximas semanas determinará o rumo de um setor crucial para a transição energética da Argentina. Não se trata apenas de cumprir normas ambientais, mas de definir quem participará do negócio e sob quais regras. A bola agora está com o Congresso.

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