
O futuro do biodiesel na Argentina está em jogo. O Senado está analisando um projeto de lei que promete reorganizar o mercado de biocombustÃveis, mas que desencadeou uma acirrada disputa entre pequenas e médias empresas do interior do paÃs e grandes corporações de petróleo e gás. No centro da controvérsia está a porcentagem obrigatória de mistura com o diesel, um número que determina a sobrevivência de dezenas de usinas e os rumos da transição energética do paÃs.
A iniciativa, liderada pela senadora Patricia Bullrich e apoiada pelo Poder Executivo, propõe uma mudança profunda nas regras do jogo. Ela aumentaria o teor de biodiesel no diesel dos atuais 7,5% para 10%, mas com a abertura à livre concorrência, algo que atualmente não existe. As pequenas e médias empresas (PMEs) regionais, que abastecem quase todo o mercado interno, veem essa medida como uma sentença de morte. Grandes associações industriais, por outro lado, consideram-na um passo necessário para modernizar o setor e capitalizar as oportunidades de exportação.
Um projeto que busca mudar as regras.

O projeto de lei S-809/26, apresentado por Bullrich, propõe um novo marco regulatório para biocombustÃveis, substituindo a lei em vigor desde 2021. O texto contempla o aumento da mistura obrigatória de biodiesel de 7,5% para 10% dentro de um ano após sua promulgação, e também o aumento da mistura de bioetanol na gasolina de 12% para 15%. Mas o ponto mais controverso é a eliminação do sistema de cotas e preços regulamentados, que seriam substituÃdos por um sistema de paridade de importação e uma plataforma eletrônica de negociação.
Além disso, as refinarias de petróleo estão autorizadas a coprocessar matérias-primas vegetais e incluir esse volume na exigência de mistura obrigatória. Essa medida foi duramente criticada por pequenas e médias empresas (PMEs), que a interpretam como uma forma de as grandes empresas petrolÃferas conquistarem uma fatia do mercado sem passar pelas unidades de processamento tradicionais. O projeto de lei também permitiria que grandes processadores integrados de oleaginosas, que atualmente exportam a maior parte de sua produção, abastecessem o mercado interno.
Pequenas e médias empresas alertam sobre sua sobrevivência.

A Câmara Regional de Pequenos e Médios Produtores de BiocombustÃveis (Cepreb) manifestou-se com dados convincentes. O setor compreende 25 fábricas distribuÃdas por cinco provÃncias (Santa Fé, Buenos Aires, La Pampa, Entre RÃos e San Luis), empregando aproximadamente 9.500 trabalhadores e gerando cerca de US$ 1.000 bilhão em receita anual. Essas empresas, que dependem da compra de óleo de soja como matéria-prima, seriam obrigadas a competir com empresas que produzem seu próprio óleo — uma assimetria que consideram insuperável em condições de igualdade.
Segundo a Cepreb, o coprocessamento permitido para refinarias reduziria a quota de mercado efetiva dos produtores independentes para aproximadamente 7%, apesar do limite nominal ser de 10%. Além disso, o artigo 38.º do projeto de lei estabelece uma transição que reduziria gradualmente a quota de mercado garantida para as PME de 5% do limite até ao seu desaparecimento completo no final de 2030. A partir de janeiro de 2031, todo o mercado estaria aberto à livre concorrência, sem qualquer proteção para as empresas regionais.
O diretor executivo da Cepreb, Federico Martelli, não poupou palavras: "A proposta de lei de Patricia Bullrich foi feita sob medida para as empresas de oleaginosas e contra as PMEs". Sua crÃtica se concentra no fato de que o projeto de lei não leva em consideração a segmentação regional e que a liberalização total favoreceria a concentração nas mãos de cinco ou seis grandes empresas, colocando as PMEs em risco e desestabilizando a rede industrial do interior produtivo.
As principais redes de cinema e televisão estão exigindo mais ambição.

Por outro lado, a Câmara Argentina de BiocombustÃveis (CARBIO) e a Câmara da Indústria PetrolÃfera (CIARA) manifestaram apoio ao projeto e defendem que ele seja ampliado. Luis Zubizarreta, presidente da CARBIO, afirmou que "consideramos viável elevar a mistura para 12,5%, visto que os preços atuais são competitivos em comparação com o diesel importado". Segundo Zubizarreta, um maior uso de biodiesel não só reduziria a dependência das importações de combustÃveis, como também teria um efeito positivo nas exportações de óleo de soja, já que o aumento do consumo interno impulsionaria os preços internacionais.
As organizações enfatizam que o setor vem investindo há décadas e gera mais de 30.000 empregos. Zubizarreta também destacou que a abertura do mercado à livre concorrência até 2030 é um prazo razoável e não representaria um sacrifÃcio fiscal para o Estado; pelo contrário: "qualquer aumento no preço do biodiesel resultaria em melhores preços para as exportações de óleo de soja". Em relação à s crÃticas das PMEs, o presidente da CARBIO esclareceu que não foram firmados acordos formais com nenhum setor, mas que incentivam o diálogo contÃnuo e confiam que o Senado será o fórum apropriado para encontrar soluções regulatórias.
Essa posição está alinhada à da CIARA e do Centro de Exportadores de Cereais (CEC), que emitiram uma declaração conjunta instando o Senado a analisar o projeto de lei o mais breve possÃvel. O setor espera que o novo marco legal combine concorrência com investimento e geração de empregos, garantindo também benefÃcios para o consumidor final.
Uma alternativa à partilha de mercado

Em resposta ao progresso do projeto, a Cepreb apresentou uma proposta alternativa buscando um equilÃbrio. A ideia é elevar a mistura obrigatória para 12,5%, mas dividir o mercado em três segmentos para permitir que as PMEs concorram em igualdade de condições. Cinco por cento seriam reservados para fábricas regionais localizadas a mais de 80 quilômetros do porto de General San MartÃn, 2,5% para empresas não integradas ao polo industrial de Rosário e os 5% restantes seriam abertos à livre concorrência, incluindo grandes processadores de oleaginosas. Em todos os casos, a alocação seria feita por meio de processos licitatórios, com preços determinados pelo mercado, mas dentro de grupos de empresas com estruturas de produção comparáveis.
A proposta não implica a manutenção das atuais quotas fixas, mas sim o estabelecimento de uma concorrência genuÃna entre empresas similares. Segundo a Cepreb, esse sistema permitiria que grandes empresas entrassem no mercado interno sem sacrificar a presença industrial das provÃncias. A organização esclarece ainda que não há consenso com outras associações industriais sobre essa alternativa, mas insiste que ela é a única forma de garantir a sobrevivência das PMEs e, consequentemente, das economias regionais.
O debate, portanto, não se resume a uma questão percentual. O modelo de desenvolvimento está em jogo: concentrar esforços em grandes grupos exportadores ou preservar uma rede de fábricas que promova um senso de pertencimento e emprego nas áreas rurais. As audiências no Senado revelaram posições irreconciliáveis, e o tempo está se esgotando.
Entretanto, o setor continua a operar com a tarifa de 7,5% e a incerteza de não saber quando ou como a nova lei será implementada. As pequenas e médias empresas (PMEs) exigem que seus números sejam considerados: as 25 fábricas produzem cerca de 900.000 mil toneladas anualmente, e um aumento para 12,5% geraria uma demanda adicional de 600.000 mil toneladas, o suficiente para preencher sua capacidade sem forçar fechamentos. As grandes associações industriais, por sua vez, insistem que, sem a liberalização completa, o paÃs perderá oportunidades de investimento e exportação em um mercado global cada vez mais competitivo.
A decisão que os senadores tomarem nas próximas semanas determinará o rumo de um setor crucial para a transição energética da Argentina. Não se trata apenas de cumprir normas ambientais, mas de definir quem participará do negócio e sob quais regras. A bola agora está com o Congresso.
