Em meio a uma onda de incêndios florestais, esse sistema de produção baseado no pastoreio extensivo durante todo o ano está se mostrando uma ferramenta eficaz para a prevenção de incêndios e a conservação do ecossistema. Organizações como a Ecovalia defendem o papel dos pecuaristas como verdadeiros guardiões da terra, enquanto a União Europeia começa a reconhecer seu valor estratégico.
Andaluzia, líder em produção orgânica.

A região da Andaluzia concentra 62% do território nacional dedicado à pecuária orgânica e possui mais de 6.000 propriedades rurais certificadas, representando 60% do total na Espanha. Segundo Álvaro Barrera, presidente da Ecovalia, as condições agroclimáticas da região são ideais para esse tipo de produção, a ponto de a regulamentação europeia sobre produção orgânica ter sido inspirada no modelo andaluz.
Províncias como Cádiz se destacam no setor de carne bovina, com raças autóctones como a Retinta. No entanto, essa posição de liderança contrasta com uma realidade incômoda: a falta de uma cadeia de processamento completa na região. Barrera explica claramente: "Nossos animais são criados aqui e depois transportados para o norte para processamento e rotulagem como orgânicos, deixando grande parte do valor agregado no norte." Essa situação significa que os benefícios econômicos saem da região.
O consumo interno é outro ponto fraco. Embora a Espanha esteja entre os dez maiores países consumidores de produtos orgânicos, o valor per capita é de € 66 por ano (€ 60 na Andaluzia), muito abaixo dos € 188 da França. Barrera insiste que os consumidores espanhóis valorizam a carne orgânica por seus benefícios para a saúde e o meio ambiente, mas é necessário impulsionar a demanda e a conscientização sobre suas vantagens, como o bem-estar animal e a redução do uso de produtos químicos.
O desafio da transformação e do consumo
A falta de infraestrutura de processamento no sul da Espanha é um problema estrutural que dificulta o desenvolvimento do setor. Enquanto o norte possui matadouros e unidades de processamento certificadas, na Andaluzia os animais precisam percorrer centenas de quilômetros para serem processados e receberem o selo de orgânico. Isso não só aumenta o preço do produto, como também reduz as margens de lucro dos agricultores locais e impede a criação de empregos em áreas rurais.
A Ecovalia está trabalhando para reverter essa situação, defendendo uma maior coordenação público-privada para desenvolver a infraestrutura necessária. A organização também enfatiza a importância de promover o consumo interno, não apenas como uma questão de mercado, mas como um compromisso com a sustentabilidade e o desenvolvimento regional. "Os consumidores precisam entender que comprar carne orgânica é investir na biodiversidade e na prevenção de incêndios", destaca Barrera.
A renovação geracional e a incorporação das mulheres no setor são outros aspectos promovidos pelo modelo orgânico. Diante da tendência de abandono das fazendas convencionais, a pecuária orgânica oferece uma oportunidade para jovens e mulheres que desejam construir suas vidas no campo.
Prevenção de incêndios e proteção do solo
Um dos aspectos mais valorizados da pecuária orgânica extensiva é sua contribuição para a prevenção de incêndios e o manejo florestal responsável . Ovelhas, cabras e vacas removem continuamente a vegetação herbácea e arbustiva, reduzindo o acúmulo de biomassa seca que alimenta grandes incêndios. Onde o gado pasta, a paisagem é mais diversificada e possui menos combustível contínuo, dificultando a propagação das chamas.
Barrera define os criadores de gado como "guardas florestais voluntários que nada pedem em troca e que sempre contribuem para a sociedade". Essa gestão da terra vai além da produção de alimentos: mantém vivos os ecossistemas das florestas e pastagens mediterrâneas, melhora a fertilidade do solo e promove a biodiversidade. Sem rebanhos, a vegetação cresce descontroladamente e os incêndios florestais encontram condições muito mais favoráveis para atingir grandes proporções.
O desaparecimento gradual da pecuária orgânica em muitas regiões também significou a perda de uma ferramenta tradicional de gestão florestal. Por essa razão, cada vez mais administrações e a própria União Europeia reconhecem o valor estratégico do pastoreio nas políticas de prevenção de incêndios. Iniciativas de pastoreio controlado e a promoção de sistemas silvipastoris fazem parte de uma estratégia que compreende que a proteção das florestas depende não apenas da atuação no momento do incêndio, mas também da gestão da paisagem ao longo de todo o ano.

Apoio da UE e a PAC
Em julho passado, a Comissão Europeia apresentou a nova Estratégia da UE para a Pecuária, com o objetivo de garantir que o setor seja competitivo, resiliente e sustentável até 2040. O documento reconhece explicitamente o valor da pecuária extensiva pela sua contribuição para a manutenção das pastagens, a conservação da biodiversidade, o combate ao despovoamento rural e a redução do risco de incêndios florestais. Longe de defender uma redução no número de animais, a estratégia centra-se na promoção de modelos de produção mais sustentáveis.
Em relação à Política Agrícola Comum (PAC), Barrera a define como um "complemento de renda" essencial para os pecuaristas orgânicos. Embora considere a PAC atual "a mais ambientalmente amigável", ele critica o fato de que as regulamentações nem sempre refletem a realidade do setor. A Ecovalia já está trabalhando para garantir que a produção orgânica esteja "representada" no próximo quadro 2028-2034, para o qual exige investimentos específicos para manter a liderança da Espanha e desenvolver a infraestrutura de processamento necessária.
O futuro do setor depende de uma maior coordenação entre o governo e o setor privado, bem como de um consumidor cada vez mais consciente. Com o apoio adequado, a pecuária biológica na Andaluzia tem potencial não só para continuar a crescer, mas também para garantir que todo o valor gerado permaneça na região, contribuindo para a retenção da população e a proteção do meio ambiente.
Em resumo, a pecuária orgânica extensiva apresenta-se como uma solução abrangente para vários dos principais desafios atuais: prevenção de incêndios, despovoamento rural, perda de biodiversidade e a necessidade de produzir alimentos de qualidade de forma sustentável. A Andaluzia, com sua liderança e experiência, está preparada para liderar o caminho na Europa, mas precisa de investimento e de um quadro regulamentar que reconheça seu trabalho. O apoio da UE e o trabalho de organizações como a Ecovalia são passos na direção certa, embora ainda haja muito a ser feito para garantir que o valor agregado permaneça na região e que o consumo interno atinja os níveis de outros países europeus.


