Cúpula de Santa Marta: a eliminação gradual dos combustíveis fósseis no centro do debate global

  • A Cúpula de Santa Marta inaugura um processo político específico para planejar a saída do setor de petróleo, gás e carvão.
  • O Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET) foi criado para elaborar roteiros alinhados com a meta de 1,5°C.
  • A Espanha e vários países europeus apoiam o processo e defendem uma transição justa com instrumentos mais ambiciosos e potencialmente vinculativos.
  • A sociedade civil e os povos indígenas pressionam por uma transição rápida, justa e respeitosa dos territórios e dos direitos sociais.

Cúpula de Santa Marta sobre a eliminação gradual dos combustíveis fósseis

A cidade colombiana de Santa Marta tornou-se, nos dias de hoje, epicentro político e científico do debate sobre como deixando para trás o petróleo, o gás e o carvão.A primeira Conferência para a Transição para Além dos Combustíveis Fósseis foi realizada lá, um evento que reuniu delegações de mais de 50 países, milhares de participantes e uma forte presença de movimentos sociais.

Durante quase uma semana, governos, especialistas e organizações tentaram responder a uma pergunta que paira no ar há anos: Como planejar, financiar e executar um saída ordenada dos combustíveis fósseis sem prejudicar as economias e garantindo justiça social. O resultado é um processo que ainda está em seus estágios iniciais, mas com decisões que apontam para uma mudança na diplomacia climática.

Um novo processo político: a mudança dos combustíveis fósseis para o centro da agenda.

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A Conferência de Santa Marta nasceu precisamente da percepção de que O Acordo de Paris deixou uma lacuna significativa.O documento estabelece metas de redução de emissões, mas não define claramente como a extração e o uso de combustíveis fósseis devem ser eliminados gradualmente. Essa lacuna foi o ponto de partida para a reunião colombiana.

Segundo organizações como a Ecologists in Action ou a Climate Alliance, Pela primeira vez, mais de 50 governos colocaram a eliminação gradual dos combustíveis fósseis no centro explícito da agenda global.Não se trata apenas de falar sobre energias renováveis ​​ou eficiênciamas sim definir uma data e um formato para o declínio do petróleo, do gás e do carvão.

Este espaço foi concebido como complementar às negociações formais da ONUMas com um cenário político diferente: menor presença de grandes produtores relutantes e um papel maior para os países dispostos a assumir compromissos. A ausência de potências como os Estados Unidos, a China e a Arábia Saudita resultou em uma coalizão de países que, apesar de não serem os maiores emissores, representam mais da metade do PIB global e uma parcela significativa da demanda de energia.

A ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez, que presidiu as negociações, resumiu o encontro afirmando que os países presentes "Eles decidiram não se resignar a uma economia construída sobre a destruição de vidas."A mensagem política é clara: a transição energética não pode mais permanecer apenas um slogan; ela precisa ser traduzida em decisões concretas.

Durante seis dias, as delegações discutiram como descarbonizar suas balanças comerciais, reformar os sistemas tributários e reorientar o comércio e o investimento. para viabilizar a remoção ordenada de fósseis. O resultado ainda não é um tratado, mas constitui uma base de trabalho para os próximos anos.

O Painel Científico sobre a Transição Energética Global (SPGET)

Um dos principais resultados da cúpula foi a criação do Painel Científico sobre a Transição Energética Global (SPGET)Concebida como uma ferramenta técnica para ajudar os países a elaborar roteiros realistas compatíveis com o limite de 1,5°C do Acordo de Paris.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente da Colômbia e organizações como o WWF, este novo painel terá a tarefa de Identificar opções concretas para reduzir a dependência de combustíveis fósseis.Analisar as barreiras legais, financeiras e políticas que dificultam a descarbonização e propor soluções adaptadas aos diferentes contextos nacionais.

O SPGET é parcialmente inspirado no funcionamento de órgãos como o Comitê Britânico sobre Mudanças Climáticas, mas incorpora uma característica fundamental: uma forte representação de países do Sul Global e pequenos estados insulares Assim como Tuvalu ou Vanuatu, que vivenciam a crise climática como uma ameaça imediata e não como algo distante.

A missão deles será explicar de uma forma muito concreta. Como abandonar o petróleo, o gás e o carvão, setor por setor e país por país.com objetivos e cronogramas compatíveis com cenários que mantenham a temperatura dentro do limite de segurança. Tudo isso, insistem seus defensores, deve ser feito protegendo o trabalho científico de pressões políticas e econômicas.

A estrutura do painel será definida entre esta primeira conferência e a próxima, e está planejada da seguinte forma: “aberto e flexível”para que os países possam aderir ou liderar iniciativas específicas com o apoio da comunidade científica. Espera-se que suas análises contribuam tanto para as decisões nacionais quanto para os debates nas próximas cúpulas climáticas.

Roteiros, barreiras legais e financiamento: o cerne do debate

Além da criação do SPGET, a cúpula concordou com três linhas de trabalho principais para orientar o processo. A primeira, talvez a mais visível, é a Elaboração de roteiros nacionais para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, com calendários e metas setoriais.

Embora cada país parta de uma situação diferente, a ideia comum é que esses roteiros devem ser integralEsses objetivos não podem ficar restritos à alçada dos ministérios do meio ambiente; devem envolver finanças, energia, indústria, trabalho e planejamento econômico. O objetivo é evitar fechamentos abruptos como o que Santa Marta vivenciou com o fechamento de duas minas de carvão sem planejamento prévio.

Uma segunda linha se concentra em desmantelar barreiras legais e financeiras que atualmente protegem a indústria de combustíveis fósseis. Isso inclui tratados de investimento que protegem grandes corporações e permitem que elas processem estados que tentam legislar em favor do clima, e altos níveis de endividamento que obrigam muitos países a continuar explorando combustíveis fósseis para pagar suas dívidas externas.

Terceiro, o processo visa a transformação da oferta e da demandaNão basta que os consumidores reduzam o uso de combustíveis fósseis se, ao mesmo tempo, a infraestrutura de extração e transporte continuar a se expandir. Daí a referência recorrente ao Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis, que propõe conter a expansão de novos projetos.

Os debates também abordaram o papel do subsídios para combustíveis fósseis e as receitas públicas associadas ao setorespecialmente na América Latina. Casos como o da Colômbia, onde os subsídios aos combustíveis aumentaram significativamente nos últimos anos, demonstram a dificuldade de conciliar a proteção social de curto prazo com um caminho viável para a descarbonização.

Apoio europeu, o papel da Espanha e as pressões sobre o Governo

A Europa tem tido uma presença marcante em Santa Marta. Quatorze países da União Europeia, incluindo a Espanha, assinaram uma declaração conjunta. em que expressam seu “firme apoio” ao processo e valorizam a liderança da Colômbia e da Holanda como coanfitriões da conferência.

Nesse documento, os governos europeus enfatizam que A eliminação gradual dos combustíveis fósseis reduz as vulnerabilidades econômicas e geopolíticas.reduzindo a exposição à volatilidade de preços, conflitos internacionais e crises energéticas que ocorreram nos últimos anos.

A delegação espanhola desempenhou um papel particularmente importante. O Terceiro Vice-Presidente e Ministro da Transição Ecológica, Sara Aagesen, participou do segmento de alto nível argumentando que Avançar com a transição energética significa avançar com a soberania.Reduzir a dependência e evitar futuras “guerras dos combustíveis fósseis”.

Aagesen também destacou a implementação de grupos de trabalho específicos sobre finanças, comércio e roteiros pela eliminação gradual dos combustíveis fósseis. E insistiu que o ocorrido em Santa Marta representa “passos concretos” para alcançar as próximas cúpulas climáticas com renovado ímpeto político.

Entretanto, Espanha e Colômbia aproveitaram a conferência para renovar seu Memorando de Entendimento sobre transição energéticaFortalecimento da cooperação em energias renováveis, mobilidade sustentável e financiamento climático. Uma aliança que busca acelerar a descarbonização de ambas as economias e compartilhar conhecimentos regulatórios e tecnológicos.

No entanto, o apoio externo não impediu que as organizações ambientais espanholas aumentassem a pressão sobre o governo. Vozes como as do WWF, Greenpeace e Ecologistas en Acción exigem ação. Um plano estatal com objetivos claros, prazos definidos, impostos sobre a indústria de combustíveis fósseis e o fim dos subsídios. que continuam a apoiar o modelo atual.

Tratado vinculativo ou compromissos voluntários: o grande confronto diplomático

Um dos debates fundamentais que ocorreram na conferência foi o dilema entre avançar em direção a instrumento internacional vinculativo Regular a produção de combustíveis fósseis ou continuar a depender de compromissos voluntários e declarações políticas.

Diversas organizações da sociedade civil, juntamente com especialistas em direito e clima, argumentam que o único caminho compatível com o direito internacional do clima Trata-se de um tratado que exigiria a manutenção de uma grande parte das reservas de combustíveis fósseis no subsolo. Sem esse instrumento, alertam, corre-se o risco de que as promessas permaneçam apenas palavras vazias.

Por enquanto, a conferência tem se limitado a reconhecer politicamente a necessidade deste novo instrumento.Sem estabelecer um cronograma ou um mandato formal de negociação, para os grupos ambientalistas, isso representa um progresso insuficiente; para muitos governos, representa um primeiro passo realista em um contexto geopolítico particularmente tenso.

Representantes de plataformas como a Campanha por um Tratado sobre Combustíveis Fósseis interpretam o contexto atual como um sinal claro de mudança: A transição para além dos fósseis é considerada inevitável.E o verdadeiro desafio reside em como garantir que seja justo, gradual e equitativo.

O Subsecretário-Geral da ONU para Ação Climática, Selwin Hart, lembrou em Santa Marta que “Todos os indicadores climáticos estão em vermelho” E o elemento comum continua sendo a queima de combustíveis fósseis. Um lembrete de que, independentemente dos ritmos diplomáticos, o relógio climático continua a correr.

Próxima parada: Tuvalu 2027 e a conexão com as COPs

Para garantir a continuidade do processo, os países participantes concordaram em realizar uma segunda conferência no início de 2027 em Tuvalu.que será copresidida por esta pequena nação insular do Pacífico e pela Irlanda. Transferir o epicentro do debate para uma nação particularmente vulnerável visa enviar uma poderosa mensagem simbólica e política.

Entre os dois compromissos, um grupo de coordenação internacional Este grupo é responsável por forjar alianças, evitar duplicação com outras iniciativas e preparar o conteúdo para futuras conferências. Inclui países como o Reino Unido, a Dinamarca, o Brasil, a França e as Ilhas Marshall, juntamente com os coanfitriões Colômbia, Países Baixos, Tuvalu e Irlanda.

Os resultados do processo de Santa Marta serão compartilhados com o Presidência da COP30que terá de integrá-las em seu roteiro, e elas se alinharão com a Agenda de Ação da COP31, agendada para ocorrer na Turquia. A intenção é que o que for discutido neste fórum não permaneça paralelo à Convenção-Quadro das Nações Unidas, mas sim contribuem diretamente para os equilíbrios globais do Acordo de Paris..

Em particular, espera-se que o trabalho científico e político do SPGET contribua para Segundo Balanço GlobalO mecanismo que avalia a cada cinco anos se o mundo está ou não em uma trajetória compatível com a meta de 1,5°C. Se confirmada, a Cúpula de Santa Marta consolidaria sua posição como uma plataforma relevante dentro da complexa estrutura da governança climática.

Organizações como a Aliança Climática veem essa continuidade como uma oportunidade para evitar que o processo se torne uma mera "coleta de impressões". O verdadeiro teste, alertam, virá quando chegar a hora de apresentar as conclusões. testes de implementação concretos em Tuvalu e nas próximas COPs.

Mobilização social e povos indígenas: justiça climática na linha de frente

Enquanto as sessões oficiais aconteciam, Santa Marta também sediou um evento. Cimeira dos Povos O evento reuniu comunidades indígenas, organizações internacionais, movimentos juvenis e grupos sociais de vários continentes. Seu objetivo: colocar a justiça climática no centro do debate.

Nessa cúpula paralela, foi aprovada uma declaração de que Ela relaciona a crise climática à dinâmica do capitalismo, do colonialismo e do militarismo.e exige que os países do Norte Global reconheçam e assumam sua dívida ecológica para com as regiões mais afetadas pelo aquecimento global.

Os protestos de rua, sob slogans como "um futuro livre de combustíveis fósseis", tinham como objetivo lembrar os governos de que A remoção de fósseis não é opcional.mas é uma condição para a sobrevivência. A questão, segundo porta-vozes de plataformas como Gas Is Not the Solution, é como garantir que essa transição seja rápida e justa.

As reivindicações da sociedade civil foram articuladas em torno de três eixos principais: Eliminação gradual dos combustíveis fósseis, financiamento eficaz para os países em desenvolvimento e reconhecimento da dívida ecológica. das economias historicamente mais poluentes.

Neste contexto, os seguintes elementos tiveram uma presença muito visível: Povos indígenas da África, América, Ásia e OceaniaEles insistiram que seus territórios não podem continuar sendo zonas de sacrifício para a extração de recursos. Representantes da Amazônia, dos Andes e de outras comunidades defenderam a manutenção dos combustíveis fósseis e outros recursos no subsolo e a busca por modelos alternativos de desenvolvimento.

Durante a pré-assembleia dos povos, a reivindicação foi clara: Proteger os territórios indígenas da extração de petróleo, gás, carvão e minerais.Garantir uma consulta prévia genuína e respeitar as comunidades como legítimas proprietárias de suas terras. Uma mensagem que vários líderes posteriormente transmitiram ao segmento de alto nível da conferência.

Dimensão latino-americana e experiências em transição justa

A América Latina chegou a Santa Marta com uma dupla face: por um lado, uma forte dependência das rendas dos combustíveis fósseisPor outro lado, existe um enorme potencial para energias renováveis ​​e novas cadeias de valor ligadas a minerais críticos como o lítio ou o cobre.

Os dados sobre reservas e subsídios mostram a dimensão do desafio. A região concentra uma parcela significativa do petróleo e gás do mundoE países como a Colômbia aumentaram significativamente seus subsídios aos combustíveis nos últimos anos, elevando-os para perto de 2% do PIB, de acordo com plataformas de monitoramento de energia.

Em resposta, o processo latino-americano em torno de Santa Marta propõe três componentes-chave para uma transição justaEm primeiro lugar, um programa de requalificação profissional com direitos garantidos, que não se limite à mudança de emprego, mas que assegure proteção social, pensões e negociação coletiva para os trabalhadores das indústrias de combustíveis fósseis.

Em segundo lugar, uma diversificação das receitas fiscais por meio de impostos sobre o carbono, taxas sobre os lucros extraordinários das empresas de combustíveis fósseis e uma eliminação gradual dos subsídios, começando por aqueles que beneficiam principalmente os grandes consumidores industriais.

O terceiro componente centra-se em Desenvolver cadeias de valor ligadas à economia limpa.A região, que atualmente exporta a maior parte de seus minerais sem processamento, pretende gerar mais empregos e riqueza local, vinculando a extração à fabricação de componentes para tecnologias renováveis ​​e armazenamento de energia.

Experiências como a de Santa Marta, onde o fechamento abrupto das minas de carvão causou uma crise econômica local, foram citadas como exemplos de O que acontece quando a transição não é planejada?Hoje, comunidades, trabalhadores e universidades da região estão experimentando novas formas de subsistência, buscando demonstrar que outra economia é possível se for implementada de maneira organizada.

Ciência, conhecimento local e bem-estar no centro da transição.

A dimensão científica da cúpula não se limitou ao anúncio da SPGET. Uma [incompreensível - possivelmente "conferência/reunião/evento/etc."] foi organizada previamente. pré-conferência acadêmica em que pesquisadores de diferentes países, juntamente com comunidades locais, discutiram como colocar as evidências científicas e outros conhecimentos no centro das decisões públicas.

O Ministério do Meio Ambiente da Colômbia enfatizou a importância de integrar o conhecimento acadêmico com outras formas de conhecimentoincluindo as cosmovisões indígenas e comunitárias. O objetivo é garantir que as políticas não sejam elaboradas sem considerar as perspectivas daqueles que vivem nos territórios afetados.

Nesses debates, surge a ideia de que a transição energética deve Colocando o bem-estar no centroNão se trata apenas de reduzir as emissões, mas de melhorar a saúde, a qualidade de vida e a igualdade de acesso a oportunidades, evitando que a transição aprofunde as desigualdades existentes.

Representantes acadêmicos apresentarão essas conclusões ao formuladores de políticas de mais de 50 países durante o segmento de alto nível, na presença de figuras como o presidente colombiano Gustavo Petro e vários ministros do clima e da energia, incluindo o ministro espanhol da Transição Ecológica.

Para grande parte da comunidade científica e da sociedade civil, o grande desafio agora é garantir que essas recomendações não permaneçam meros documentos de referência, mas sim... moldam orçamentos, regulamentos e decisões de investimento. nos próximos anos.

A Cúpula de Santa Marta deixa um sentimento agridoce: por um lado, o início de um processo político e científico que finalmente aborda de frente a eliminação gradual dos combustíveis fósseis; por outro, a persistente ausência de compromissos juridicamente vinculativos, cronogramas fixos e financiamento suficiente.Grande parte da política climática da próxima década será definida entre esses dois polos, cabendo à Espanha e à União Europeia fortalecer seu papel se quiserem que a transição seja não apenas inevitável, mas também rápida, justa e credível.